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Acervo cerâmico do Convento de Cristo

Esta exposição vem iniciar um ciclo de mostras que pretende dar a conhecer o vasto acervo, que há largos anos é reserva do Convento de Cristo. Trata-se de uma coleção heterogénea e desconhecida, que data das primeiras décadas do seculo XX, da constituição da U.A.M.O.C., e que terá tido como objetivo a criação do Museu da Cidade de Tomar. Chegou mesmo a possuir um núcleo museológico exposto neste monumento através de dois núcleos, um essencialmente de materiais pétreos e outro, mais eclético onde a presente coleção se inseria.

Expor em contexto, neste caso na cozinha e no refeitório, permite simultaneamente o enriquecimento da leitura desta coleção como do monumento e seu percurso de visita num universo que nos transporta da confeção e armazenamento até a mesa dos frades.

Através deste conjunto de cerâmicas, algumas quase intactas, outras revelando o desgaste do Tempo, podemos adivinhar todo um processo, fulcral para a leitura deste quotidiano conventual como da funcionalidade dos seus espaços.

Com esta série, intensificam-se as leituras e vivências que foram construindo a História deste monumento. Abrem-se, também, novos horizontes e reduzem-se as distâncias entre o Passado e o Presente.

Andreia Galvão
Diretora do Convento de Cristo

O acervo cerâmico do Convento de Cristo

Com o decreto da extinção das Ordens Religiosas masculinas em Portugal, em Maio de 1834, os bens das corporações religiosas são confiscados e postos à disposição da Coroa. Os bens móveis do Convento de Cristo, desde o acervo artístico, bibliográfico e documental, as alfaias religiosas, as máquinas e instrumentos até aos utensílios comuns, como as loiças e faqueiros de cozinha e mesa, serão objeto de classificação, loteamento e posterior alienação, por venda, leilão ou transferência para diversas instituições.

São conhecidos casos de faqueiros derretidos para aproveitamento do seu metal precioso. Já as peças que apresentavam qualidade artística seriam mais tarde incorporadas nas coleções museológicas estatais, tais como o futuro Museu Nacional de Arte Antiga.

A loiça da mesa fradesca e os diversos barros de cozinha, terão merecido um destino menos nobre. De facto, à exceção da loiça de farmácia, entregue à Santa Casa da Misericórdia de Tomar, a "baixela conventual" foi perdida na voragem da extinção das ordens religiosas. As escassas peças que chegaram até nós foram reunidas, sobretudo, pela União dos Amigos dos Monumentos da Ordem de Cristo - UAMOC, que desde os inícios do séc. XX, pugnou pela reintegração do património da extinta Ordem de Cristo.

Atualmente, graças às peças reabilitadas, pode constatar-se que, nos finais do séc. XVII e inícios do séc. XIX, existiam a uso no Convento de Cristo dois conjuntos de loiça de mesa: o do Refeitório, que serviria os cerca de 100 religiosos regulares e outro da Enfermaria para uso exclusivo dos enfermos.

Rui Ferreira

 

Do comer: o espaço e a loiça

De um modo geral, nos séculos XVII e XVIII, a loiça que vai à mesa monástica seria de faiança. Cada monge tinha a sua própria escudela ou malga (na qual comia os alimentos mais líquidos - caldo ou sopa), o prato (no qual comia os alimentos sólidos), o copo (por onde bebia os líquidos - água ou vinho). No Convento de Cristo, infelizmente não proveniente de contexto arqueológico, existe um conjunto interessante de loiça de faiança dos séculos XVII e XVIII: almofias, escudelas e malgas, pratos, covilhetes, bacia, malga com asas, travessa de galhetas e algumas tampas desirmanadas.

Por vezes nos conventos usava-se loiça que se mandava fazer de encomenda e na qual se apunham símbolos identitários da ordem religiosa, do local ou outros, ou então marcas possessórias com o nome do seu dono ou com datas. No caso do convento de Cristo conhecem-se pratos, escudelas e malgas com a Cruz da Ordem de Cristo, sendo que numa delas para além da dita cruz se inscreve a data de 1758, e noutra a legenda «F Convento de Cristo».

Através destas peças de faiança conseguimos vislumbrar um pouco melhor o que seria a mesa dos monges do Convento de Cristo.

Isabel Maria Fernandes

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